domingo, 1 de junho de 2014

A Cruz (36 do Lenormand)



Já é notório que o baralho Lenormand tem uma origem lúdica alemã, então nada mais apropriado que investigar seu simbolismo à base de uma interpretação nativa. Como o Jogo da Esperança teve sua origem entre 1771 a 1799 pelo artista Johann Kaspar Hechtel, é bem provável que tenha tido uma influência protestante neste símbolo. Até porquê não há a presença do Jesus Crucificado.

A Cruz é um dos símbolos que mais detalhadamente analiso em uma leitura. Não pelo contexto religioso, mas pelo que isso simbolizará para o consulente – independente da religião de cada um.
A Alemanha foi palco de uma das mais revolucionárias reformas da Igreja cristã através de Martin Luther quando resolveu ir de encontro com os conceitos de salvação impostos pela Igreja Católica Romana envolvendo a liberdade e salvação de Deus através da compra ou barganha.
Luther (Martinho Lutero) pode ser considerado o fundador do protestantismo – uma vertente cristã que predominou por muito tempo na Alemanha. Essa vertente não vê a Cruz como o Cristãos Romanos a veem.
“Nenhum personagem histórico entendeu melhor e mais profundamente o poder da cruz que Martinho Lutero, o reformador do século XVI”, escreve Mark Shaw. E Alister McGrath, um teólogo de Oxford, definiu a teologia da cruz de Lutero como “uma das compreensões mais poderosas e radicais da natureza da teologia cristã que a Igreja já conheceu”.
Em abril de 1518, Martinho Lutero (1483-1546), em Heidelberg, contrapôs seus “Paradoxos” teológicos como “teologia da cruz” (theologia crucis) à “teologia da glória” (theologia gloriae), isto é, à teologia eclesial dominante. Este episódio de 1518 tem sido descrito por Shaw como um “sussurro silencioso e ignorado”; constitui-se, entretanto, um grande engano passar despercebido por ele. No “Debate de Heidelberg”, travou-se a discussão da indulgência. Lutero contrastou a teologia da cruz com a teologia oficial, diante de uma igreja que se tornara segura e saciada. Como exemplo dessa realidade, para financiar o seu projeto mais extravagante, a basílica de São Pedro em Roma (incluindo a Capela Sistina), Leão X (1475-1521), eleito papa em 1513, resgatou a prática de cobrar indulgências, o que, de alguma maneira, precipitou a Reforma Protestante. Em Heidelberg, distinguindo entre o cristianismo evangélico bíblico e as corrupções medievais, Lutero entendeu que a igreja medieval seguia o caminho da glória ao invés do caminho da cruz.
Conhecer a Deus pela cruz é conhecer o nosso pecado e o amor redentor de Deus. Deus, na cruz, destrói todas as nossas ideias preconcebidas da glória divina. O perigo em potencial que a teologia da cruz vê na sua antítese é que a teologia da glória levará o homem a alguma forma de justiça pelas obras, à tendência de se fazer uma barganha com Deus com base em realizações pessoais. Por outro lado, a teologia da cruz repudia firmemente as realizações do próprio homem e deixa Deus fazer tudo para efetivar e preservar a sua salvação.
O teólogo da cruz não está posicionado como espectador em relação à cruz de Cristo, mas ele próprio é envolvido neste acontecimento. Por isso, ele não foge dos sofrimentos, tal qual o teólogo da glória, mas considera-os tesouro valioso. Para Lutero, o teólogo da glória “define que o tesouro de Cristo são relaxações e isenções de penas, sendo estas as piores coisas e as mais dignas de ódio.
Assim, para a teologia da cruz o sofrimento adquire significado todo especial. Os cristãos têm que se tornar iguais a seu Mestre em tudo e, por isto, têm de assumir a ignomínia de Cristo. Cristo nos precedeu no caminho que rejeita toda grandeza humana. A glória do cristão consiste nesta “fraqueza e baixeza”. E sua baixeza se revela no ato de levar o sofrimento. Visto que em meio à vida de Cristo está erigida a cruz, a vida do cristão é discipulado e sofrimento. Uma razão, diz Lutero, pela qual as pessoas querem uma teologia da glória em vez de uma teologia da cruz é que elas “odeiam a cruz e o sofrimento”. Mas, à luz da cruz, o sofrimento serve a um propósito importante, a saber, a autonegação. Ela nos esvazia de nossa autoconfiança, para que possamos ter confiança em Deus. Contudo, o sofrimento jamais deve tornar-se “boa obra”, e não encontra sua origem em ideias ascéticas. A cruz do cristão está em unidade com a cruz de Cristo, e com isto está excluída por si só toda a ideia de mérito da pessoa, que pudesse ser obtido pelo sofrimento.
A cruz é, portanto, um paradoxo: Deus rejeita os orgulhosos, mas aos humildes concede a sua graça; ele rejeita os heróis, mas derrama o seu amor justificador aos fracassados. Assim, a humildade é a virtude básica da vida sob a cruz, do mesmo modo como a soberba é o verdadeiro e o maior pecado. Somente a fé pode perceber essa realidade verdadeira e paradoxal. A fé e a humildade estão intimamente relacionadas. A fé ensina a humildade, pois a fé é “negação de nós mesmos”, total renúncia e confiar na graça de Deus. Nesta negação de todos os direitos humanos, a fé se identifica com a humildade. Ostentar a própria humildade, como numa espiritualidade monástica, não é humildade.
E aí? Quando a cruz aparece em uma leitura, como vamos interpretá-la?
1-      Vamos impor ao consulente a valorização de sua fé em uma divindade e prol de um benefício próprio?
2-      Vamos conduzi-lo a aceitar com resignação seu sofrimento porque a divindade vai aceitar tal sacrifício como uma paga ou barganha?
3-      Ou vamos orientá-lo a despertar sua Fé interior no que realmente acredita para que possa conquistar aquilo que deseja, em vez de atribuir suas vitórias e fracassos a algo superior?

Um comentário:

  1. Adorei Luqiam, excelente construção do texto, da reflexão deste símbolo e o como lidamos com ele em nossas mesas. Obrigado ! ;)

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