terça-feira, 18 de março de 2014

Cartomancia Zott - parte I




Antes dos naipes ganharem forma nos jogos árabes; os povos nômades já se utilizavam de símbolos que representavam aspectos pessoais e destino de cada clã. O conceito de que só as mulheres ciganas tinham o dom de ler as cartas, assim como a quiromancia se dá em parte a estes conceitos. 
O sangue - fluído corporal sempre foi importantíssimo dentro da cultura rom, e toda orientação mágica oracular se dava por meio oral, passado de mãe para filha. No princípio só interessava saber o destino de cada família específica e isso se dava através da leitura nada incomum do número de gotejamentos de sangue da Shuvani (Cigana mais antiga) em folhas de plantas específicas. Nesta época não existiam as cartas de corte (Reis, Damas e Valetes), e apenas dois 'naipes' - se podemos dizer assim, eram tidos como base oracular dentro dos clãs: o naipe de copas - representados pela quantidade de sangue em folhas (de 1 a 13) e os naipes de paus - representados por riscos em carvão nas folhas, também em números de 1 a 13.
Este oráculo, basicamente herbário era usados dentro das famílias com conceitos próprios e específicos a necessidade do clã. Portanto, podemos dizer que originalmente só existiam dois 'naipes' originais: o de copas ( pelo sangue - representando a família como um todo e seus descendentes); e o 'naipe' de paus (representando os perigos e alertas do que já foi destruído, pelo uso de carvões restantes de ritos fúnebres de passagem entre os zott); o uso era delicado e só manuseado por mulheres preparadas para tal, haja vista o povo nômade cigano original ter aversão aos que já se foram, chamados de "Mulos" (espíritos maléficos).
Bem, com o passar do tempo e a miscigenação das famílias zott, talvez as mulheres ficassem escassas, só nascendo homens; e de uma forma bem sábia e para manter seu estilo oracular, mais dois elementos ou 'naipes' tiverem que ser incorporados a cultura. Entretanto o domínio da riqueza (moedas e ouro) e dos trabalhos braçais/lutas (punhal e facas) eram dos homens. E como a cultura deveria ser mantida, essas mulheres mais velhas foram obrigadas a ensinar os segredos do sangue e cinza aos homens incorporando as estruturas materiais e de subsistência. Assim as folhas agora passaram a ser numeradas por sangue, pó carvão, ouro e cortes - dos punhais e facas. Aí surge de fato o conjunto 'naipiano' utilizado também pelos homens, filhos geralmente mais novos (caçulas) e que eram preparados exclusivamente para substituir as filhas não vindas nos partos. Quanto a quiromancia (leitura das mãos) continuou restritas as mulheres até hoje (antropologicamente falando), pois vemos muitos homens estudando e praticando o Drajì. Assim como a cleromancia (uso dos dados) eram exclusivos aos homens, e hoje vemos algumas mulheres usando-os.
Quando esses povos nômades começaram a se tornar popular em suas andanças e apresentações circenses, tiveram muito contato com as Côrtes Imperiais, e para agradar as "madames" transformaram o 11º, 12º e 13º em personagens da nobreza. Anos se passaram e as cartas impressas começaram a ser mais práticas para o uso comum dos nômades, e logo substituídas pelas folhas herbárias.
Hoje, os ciganos mais tradicionais se utilizam do 'baralho comum' por representarem basicamente a mesma coisa e por sua durabilidade; mas não perdendo seus conceitos básicos.
É bom ressaltar que a contagem numérica de interpretação da cartomancia tradicional difere em muito o conceito dos arcanos menores do tarô. E é isso que pretendo passar para os estudantes. A leitura do baralho comum é linda e de uma singularidade única, totalmente embasada nos conceitos e cultura das famílias ciganas.
Aos poucos vou publicando seus significados aqui, que curiosamente se iniciam do 2 ( pois esperavam o segundo filho para iniciar os mistérios mágicos e oraculares). O 1 ou Ás era considerada uma folha curinga. Isso demostra mais uma vez que os conceitos da cartomancia original zott não tem nada a ver com numerologia pitagórica, eles se baseavam em outros conceitos.
Aguardem novas informações, e viagem nos mistérios do povo antigo "nômade das estrelas" ( conceito de como se guiavam em suas andanças).

Luqiam.osahar 18/03/2014

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