sexta-feira, 29 de novembro de 2013

Yemanjá - A Grande Mãe


Nesta minha postagem vou me restringir apenas a comentar sobre arquétipos e culto da deusa, pois os mitos são variáveis e pode confundir um pouco.

Yemanjá, “Iyá Omo Ejá”, (a mãe dos filhos peixe). Quando nossos ancestrais escravos africanos foram trazidos para nossa terra brasilis, trouxeram com eles vários deuses e deusas, cada tribo com sua divindade, imaginem a “confusão” que não foi ! cada um querendo cultuar seu deus, e como fazê-lo , se havia algumas discrepâncias? Ex:
1-      Algumas tribos eram, até mesmo, inimigas.
2-      Havia diferença linguísticas, dialetos diferentes.
3-      A predominância católica-portuguesa dificultava o culto pagão.

Assim sendo, foram necessárias várias adaptações para que o culto permanecesse vivo, mesmo que na falta de sua plenitude. Uma dessas adaptação foi dar “títulos” a divindades semelhantes em sua liturgia, unindo as diversas divindades por “categoria”: deuses das águas, da terra, da guerra , da caça, da magia, da morte, etc.
O título de “Yemanjá” foi dado as deusas que de uma certa forma eram cultuadas, ou vinculadas às águas, isso pode ter acontecido por alguns fatores:
1-Essas deusas eram responsáveis pelo sustento da pesca, em algumas tribos.
2- Eram associadas aos ritos de fertilidade e agricultura, de onde as águas seriam simbolismo do sêmen primordial que fecunda a terra e provê os frutos; sabe-se que muitas tribos africanas consideravam o peixe como símbolo feminino sagrado.
3-Algumas tribos era comum a decapitação de membros com problemas mentais, servindo como sacrifício para uma boa pesca, desde que as cabeças fossem lançadas ao rio.
Enfim, chegando aqui e se adaptando, nossos ancestrais começaram a cultuar seus deuses, e apesar de várias modificações durante todo esses mais de 500 anos, ainda mantemos viva nossa belíssima religião com seus maravilhosos deuses.
A seguir poderão observar, que nem todas as Yemanjas de que se tem conhecimento, e devem existir muito mais, eram associadas não exclusivamente ao mar, muitas delas tinham seu culto em lagos e rios e até mesmo em fontes. Muita coisa se perdeu durante séculos, por isso não se cultuam todas, apenas temos registros históricos e não litúrgicos.
São 16 divindades registradas em minha pesquisa que recebem o título de Yemonjá, mas aqui no Brasil, só cultuamos em torno de 8 dessas deusas.
Yemanjá Asdgba : É a mais velha, manca de uma perna devido a uma luta com um Exu, rabugenta, e feiticeira, fala de costas, gosta de fiar seu cristal. Comanda as caçadas mais profundas do oceano.Veste branco.
Yemanjá Akurá: Vive nas espumas do mar, aparece vestida com lodo do mar e coberta de algas marinhas. Muito rica e pouco vaidosa. Adora carneiro.
Yemanjá Ataramaba: Esta divindade é representada numa forma infantil, historicamente não há registros de como e quando o culto a ela era praticado, mas como referência ela é simbolizada como estando sentada no colo de seu pai, Olokun., o Deus do Mar.
Yemanjá  Iyáku: Vive na espuma da ressaca da maré, muito violenta, está associada aos grandes desastres, registros arquelógicos remontam seu culto a aproximadamente 300 a.C na costa de Togo, a ela eram oferecidos sacrifícios humanos para aplacar sua ira. Não se “raspa” essa Yemanjá.
Yemanjá Ayio: Muito velha. Veste sete anáguas para se proteger. Vive no mar e descansa nas lagoas. Está associada aos pássaros noturnos, seus altares eram montados no topo de grandes arvores, de onde se avistava o litoral e a mata, só as mulheres tinham permissão de se aproximar dessa divindade. Provavelmente, como a maioria das yabás, tem ligação com o Gelédè ( sociedade secreta feminina das Iyámì Oxorongá ).
Yemanjá Iya Iamasse: É a mãe de Ajaká ( um Xangô). Esposa de Oranian e muito festejada durante as festas consagradas a seu filho. As suas contas são branco leitosas, rajadas de vermelho e azul. Era venerada como a “Grande Senhora de Oyò”, por seu senso de justiça, sentava-se sempre à mesa ao lado de Ajaká, e presidia do conselho dos 12 ministros de Oyó.
Yemanjá Iyemoyo, Awoyó; Yemuo; Iyá Ori ou Iemowo: (os diversos nomes correspondem as diversas tribos que cultuavam as mesmas atribuições da deusa com nomes diferentes). É uma das mais velhas divindades que receberam o título de yemanjá, possui ligação com Olufã, o seu fundamento está no ori (cabeça). Era venerada em Ifé como a “Iyá Ajé funfun” a mãe feiticeira, aquela que curava todos os males. Representa a vida, pode curar doenças da cabeça. Veste branco e cristal.
Yemanjá Konla:  Divindade do litoral sul de Gana, se assemelha muito com a Yemanja Iyáku, O mito referente ao seu culto conta que ela afoga os pescadores, mas isso deve ser uma relação aos ritos sacrificiais desta deusa. O interessante é que ela não residia nos mares, e sim nas grutas; caminhava sempre acompanhada por um lobo. Só saia para receber oferendas, comia as víceras e a carne dava ao seu animal.
Yemanjá Maiyelewo: Esta Yemanjá era venerada no meio da mata, não se sabe ao certo o motivo, mas eram transportada água do mar até o centro da mata, onde havia um buraco no chão. Neste “lago” artificial com água salgada, eram depositadas suas oferendas, é uma deusa estritamente ligada ao uso mágico das ervas. Veste-se de algas, e carrega em sua cabeça uma cabaça com água do mar.
Yemanjá Odo: A deusa do rio benué na Nigéria, muito vaidosa e feminina, ligada aos ritos de fecundidade e agricultura. Seus altares eram lavados com sangue menstrual, uma referência talvez de que só as mulheres ( férteis) poderiam ter contato com a deusa. Alguns historiadores associam sua ligação com Exús pelo fato de existirem “falos” em volta de seus altares, mas provavelmente isso seria mais um item a representar os ritos de fertilidade e fecundidade desta deusa.
Yemanjá Ogunté: Considerada a nova guerreira, dona da espada, esposa de Alagbedé e mãe de Akorô . O seu nome significa aquela que contém a guerra. Vive perto das praias, no encontro das águas com as pedras. Traz na cintura um facão e todas as ferramentas de seu filho. Veste branco; azul marinho, cristal, ou verde e branco.
Yemanjá Olossá :  É a Yemanjá mais velha da terra de Egbadò, considerada na região a Mãe Primordial, esta seria um divindade cultuada em um lago, não aceitava sacrifícios animais e sim agrícolas. Artefatos encontrados em referencia a ela mostram essa deusa usava uma vestimenta de penas. Talvez de pássaros aquáticos.
Yemanjá Oyo: Benéfica, muito feminina, saudada na cerimônia do Padê, se apresentava nua e conduzia o fogo. Não se levanta altares para esta yemanjá, e não se “raspa”. Não se sabe ao certo por que recebeu o título de “Iyá Omo Ejá”, pois não há referencia a ela em ritos aquáticos.
Yemanjá Saba: Fiadeira de algodão, bondosa e caridosa, foi esposa de Orunmilá e por um determinado tempo era consultada para ver o futuro, por seu dom da visão, tinha o título de “Iyá Ojù Itin” ( a mãe que vê na escuridão). Alguns mitos ligam ela à divindade do oráculo, mas historicamente, o ifá só migrou do Egito para a região de Benim depois do culto a esta deusa, aproximadamente 430 a.C.  
Yemanjá  Yasessu :A filha mais velha de Olokun, Ligada à gestação. Voluntariosa e respeitável, mensageira de seu pai, o deus do mar. Vive nas águas sujas do mar e tem como carruagem as arraias ( no mar) e as garças (na terra). Visitava seus devotos à noite, e levava consigo varias cabaças contendo os segredos do mar e da terra. Vários partos eram feitos no litoral e os filhos eram dedicados a ela.  Veste-se de corais e suas contas são de pérolas, andava sempre ao lado de sua irmã mais nova, Ajé-xalugá, a senhora da cura e riqueza do mar.
Yemanjá Yinaé : Aquela que os filhos sempre serão peixes. Também conhecida como Marabô, mora nas águas mais profundas. É a sereia, ligada à reprodução dos peixes; vem sempre a beira do mar apanhar as suas oferendas; era cultuada como uma ninfa. Provedora da fartura para vários povos ribeirinhos. Não se “raspa” essa Yemanjá. Recebia como oferenda as cabeças dos peixes que seus filhos se alimentavam.

Ervas:
Teté = Bredo sem espinhos ,Orim-rim = Alfavaquinha ,Odum-dum = Folha da costa , Efim = Malva branca ,Omin-ojú = Golfo branco ,Jacomijé = Jarrinha ,Ibin = Folha de bicho ,Já = Capeba ,Obaya = Beti-cheiroso ,Ìróko = Folha de loko,Tinin = Folha de neve branca, cana-do-brejo ,Ereximominpala = Golfo de baronesa ,Teterégún = Canela de macaco ,Monam = Parietária ,Jamim = Cajá, Obô = Rama de leite

Adùrá ti Yemonjá ( Reza para Yemanjá)

Yemonjá gbé rere ku e singbá ( Yemanjá, traz boa sorte repentinamente )
Gbè ní a gbè wí ( receba-nos e proteja-nos em seu seio )
To bo rénú odò yin ( te cultuamos em vosso rio)

Òrisá ògìnyón gbá ní odo yin ( orixá que se alimenta de inhames novos, receba-nos em vossa casa)

Dois mitos sobre Yemanjá.
Olodumare fez o mundo e repartiu entre os orisàs vários poderes, dando a cada um reino para cuidar.A Exú deu o poder da comunicação e a posse das encruzilhadas. A Ogum o poder de forjar os utensílios para agricultura e o domínio de todos os caminhos. A Osóssi o poder sobre a caça e a fartura. A Obaluaê o poder de controlar as doenças de pele. Osumarê seria o arco-íris, embelezaria a terra e comandaria a chuva, trazendo sorte aos agricultores. Sango recebeu o poder da justiça e sobre os trovões. Oyá reinaria sobre os mortos e teria poder sobre os raios. Euá controlaria a subida dos mortos para o orum, bem como reinaria sobre os cemitérios. Osun seria a divindade da beleza, da fertilidade das mulheres e de todas as riquezas materiais da terra, bem como teria o poder de reinar sobre os sentimentos de amor e ódio. Nanã recebeu a dádiva, por sua idade avançada, de ser a pura sabedoria dos mais velhos, além de ser o final de todos os mortais; nas profundezas de sua terra, os corpos dos mortos seriam recebidos. Além disso do seu reino sairia a lama da qual Osalá modelaria os mortais, pois Odudua já havia criado o mundo. Todo o processo de criação terminou com o poder de Osogyian que inventou a cultura material.
Para Yemanjá, Olodumare destinou os cuidados da casa de Osalá, assim como a criação dos filhos e de todos os afazeres domésticos. Yemanjá trabalhava e reclamava de sua condição de menos favorecida, afinal, todos os outros deuses recebiam oferendas e homenagens e ela, vivia como escrava.Durante muito tempo Yemanjá reclamou dessa condição e tanto falou, nos ouvidos de Osalá, que este enlouqueceu. O ori (cabeça) de Osalá não suportou os reclamos de Yemanjá. Osalá ficou enfermo, Yemanjá deu-se conta do mal que fizera ao marido e, em poucos dias, utilizando-se de ori (banha vegetal), de omi-tutu (água fresca), de obi (fruta conhecida como nóz-de-cola), eyelé-funfun (pombos brancos) e esò (frutas) deliciosas e doces, curou Osalá. Osalá agradecido foi a Olodumare pedir para que deixasse a Iemanjá o poder de cuidar de todas as cabeças. Desde então Iemanjá recebe oferendas e é homenageada quando se faz o bori (ritual propiciatório à cabeça) e demais ritos à cabeça.
Yemanjá seria a filha de Olokum, deus (em Benin e em Lagos) ou deusa (em Ifé) do mar. Foi casada pela primeira vez com Orunmyila, senhor das adivinhações, depois com Olofin-Oduduá, Rei de Ifé, com quem teve dez filhos, que se tornaram Orisás. De tanto amamentar seus filhos, seus seios ficaram enormes. Esta foi a origem dos desentendimentos com o marido. Embora ela já o houvesse prevenido, dizendo-lhe que jamais toleraria que ele ridicularizasse os seus seios, uma noite o marido, que havia se embriagado com vinho de palma, não mais podendo controlar suas palavras, fez comentários sobre seus seios volumosos.Tomada de cólera, Yemanjá fugiu em direção ao oeste, o "escurecer da terra". Olokun lhe havia dado outrora, por medida de precaução, uma garrafa contendo um preparado, pois "não-se-sabe-jamais-o-que-pode-acontecer-amanhã". E assim Yemanjá foi instalar-se à oeste de Abeokutá, alusão à migração dos Egbás.Olofin-Oduduá lançou seu exército à procura de Yemanjá. Esta, cercada, em vez de se deixar prender e ser conduzida de volta a Ifé, quebrou a garrafa, segundo as instruções recebidas. Um rio criou-se na mesma hora, levando-a para Okun, o mar, lugar de residência de Olokun.

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