segunda-feira, 28 de outubro de 2013

Saudades dos Orixás.




Essa semana estava conversando com um amigo sobre o candomblé de hoje em dia, e fazendo algumas comparações com os de "antigamente". 
Me recordo claramente minha aflição por ter que ficar recolhido 3 meses dentro de uma roça; ter que acordar as 4h da manhã para tomar banho de ervas no Tempo - inverno, me recolhi no mês de agosto; de ter que tomar um mingau insosso; de comer alimentos sem temperos e pouco sal; de dormir em uma esteira no chão de terra batida; de acordar a qualquer hora para uma série de rezas; de ter que andar de cabeça baixa; e tantas outras coisas.

Hoje, sinto saudades de meu "barco", dos meus irmãos e de meu babalorisà - que faleceu ano passado. Se passaram 21 anos e muita coisa mudou; o candomblé de antigamente, quase extinto, dá lugar a uma nova modernidade. 

Antes, "Orixá" era simples sem deixar de ser belo; hoje é glamour, brilhando mais que alegoria de escola de samba. 
Antes, "Orixá" era humildade; hoje é Ego exacerbado.
Antes, "Orixá" era pura Natureza (de Natural); hoje é robótico (de programado).
Antes, "Orixá" era Fé e Devoção; hoje é comercial e profissão.
Antes, "Orixá" era Pai e Mãe espirituais; hoje são juízes e carrascos.
...

Ah, não vou ser tão radical. O tempo muda mesmo e não devemos ficar presos a conceitos tão primitivos. Mas hei de convir que, mesmo com nossa modernidade, é imprescindível que mantenhamos alguns aspectos devocionais inalterados. Mas estou sendo bem sincero quando digo que me assusta até onde essa modernidade vai parar.

Alguns aspectos litúrgicos devem e podem ser mudados, como por exemplo a imolação; que hoje não caberia mais em seu real propósito, que era de alimentar o povo. Afinal de contas, as pessoas hoje, em sua grande maioria, vai as casas de asè para beber, sim BEBER! Chega a ser engraçado quando alguns me convidam a uma festa de Orixá, e logo e tentam me convencer a ir porque vai ter 100 caixas de cerveja. 

Enfim, enquanto as pessoas não souberem desenvolver discernimento espiritual, jamais entenderão a diferença entre Orixá e "candomblé atual". 

Espero que os verdadeiros Orixás não tenham morrido, afinal os deuses também não são eternos; e sim, estejam escondidos ou pegado o "caminho de Aruanda" de volta para casa.

Que Iyá Omo ejá e Osò òsí abençoe a todos nós com discernimento e responsabilidades espirituais.

Luqiam (28-10-13)

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