segunda-feira, 14 de outubro de 2013

A ORIGEM DA RELIGIÃO AFRICANA NO BRASIL


Irmandade da Boa Morte 

A instituição de confrarias religiosas sob a égide da igreja católica separava as etnias africanas, os pretos de angola formavam a venerável Ordem Terceira do Carmo, fundada na igreja de Nossa senhora do rosário do pelourinho; os daomeanos (gêges) reuniam-se sob a devoção de Nosso Bom Senhor Jesus das necessidades e redenção dos homens preto na capela do corpo santo, na cidade baixa (Salvador); os nagôs, cuja maioria pertencia a nação Keto, formava duas irmandades: uma de mulheres, a de Nossa Senhora da ao Morte e a outra reservada aos homens, a de Nosso Senhor dos Martírios.
Essa separação por etnias completava o que já havia esboçado a instituição dos batuques do século precedente e permiti aos escravos, libertos ou não assim reagrupados, praticar junto novamente, em locais situados fora da igreja e culto do seus Deuses africanos.
Varias mulheres energéticas e voluntariosas originárias de keto, antigas escravas libertas, pertencentes a Irmandade da Boa Morte da igreja da barroquinha, teria tomado a iniciativa de criar um terreiro de candomblé, chamado Iyá Omi Àse Àirá Intilé. As versões sobre o assunto são diversas e bastantes relativas as diversas peripécias que acompanham essas realizações, os nomes dessas mulheres são até mesmos controversos, duas delas chamadas Iyalusso Danadana e Iyamasso Akalá, segundo uns, e Iyamasso Oká, auxiliadas de um certo Baba Assik saudado como Essa Assiká no padê do qual falaremos mais tarde, teriam sido as fundadoras do terreiro de Asé Airá Intilé. Iyamasso Danadana, segundo consta, regressou a áfrica e lá morreu, Iyanasso teria pelo lado viajando a Keto acompanhada por Marcelina da Silva. Não se sabe exatamente se essa sua filha era de sangue ou espiritual, porem se sabe que seu nome espiritual era Obatossi.
Marcelina Obatossi fez-se acompanhar nessa viagem por sua filha Madalena, após sete anos de permanência no Keto, o pequeno grupo voltou acrescida de suas crianças que Madalena tivera na África, e grávida de uma terceira, Claudina.
Iyanasso e Obatossi trouxeram do Keto, além dessas filhas e netos, um africano chamado Bangboxé, que recebu o nome de Adlfo Martins de Andrade ao chegar na Bahia , e saldado como Essa Obitikô.
O terreiro situado, quando de sua fundação, por trás da barroquinha (Salvador) mudou-se por diversas vezes e após haver passado pelo Calabar (Salvador), na baixa de são lázaro, instalou-se sob o nome de Ilê Iyamasso na Av. Vasco da Gama, onde ainda hoje se encontra, sendo familiarmente chamado de “Casa Branca” do engenho velho, e no qual Marcelina Obatossi tornou-se a Mãe de santo após a morte de Iyamasso.

Casa Branca

Verifica-se uma ligeira divergência na versão dada por dona Menininha relativas as origens de terreiros na barroquinha, o nome de Iyalusso Danadana não é mensionado, a primeira Mãe e santo teria sido Iya Akalá, que tendo regressado da África, aí mesmo veio a falecer, e a segunda Mãe de santo teria sido Iyamasso Oká.
Não se sabe com precisão a data de todos esses acontecimentos, pois no inicio do século XIX, a religião católica era a única autorizada; as reuniões de protestantes eram só toleradas para estrangeiros, o islamismo, que provocara uma serie de revoltas de escravos entre 1808-1835 eram formalmente proibidos e perseguido com extremo rigor, os cultos aos Deuses africanos eram ignorados e passavam por práticas supersticiosas. Tais cultos teria caráter clandestino e as pessoas que neles tomavam parte eram perseguidos pelas autoridades.
Por volta de 1826, a policia da Bahia havia no decorrer das buscas efetuadas com o objetivo de prevenir possíveis levantes de africanos, escravos ou livres na cidade ou nas redondezas recolhidos atabaques, espanta moscas e outros objetos que pareciam mais adequados ao candomblé do que uma sangrenta revolução. Um artigo do jornal da Bahia , de 3 de maio de 1855 faz alusão a uma reunião da casa de Ilê Iyamasso, foram presos e colocados a disposição da policia, Cristovam Francisco Tavares, africano amancipado, Maria Salomé, Joana Francisca, Leopodina Maria da Conceição, Escolástica Maria da Conceição, crioulos livres, os escravos Rodolpho Araujo Sá Barreto, mulato Melonio, e as africanas : Maria Tereza, Benedita, Silvana ... que estavam no local chamado engenho velho, numa reunião que se chamava candomblé; é curiosos encontrar nesse documento o nome, pouco comum de Escolástica Maria da Conceição, o mesmo com o qual teria sido batizada Mãe Menininha, 35 anos mais tarde, a famosa Mãe Menininha do Gantois, cujos pais a essa época sem duvida freqüentavam ou faziam parte do terreiro de Ilê Iyamasso, onde houve a ação policial.
Com a morte de Marcelina Obatossi, foi Maria Julia Figueiredo, Omoniké Yatalodé, também chamada de Erelú na sociedade do Geledê (Culto às Iyami Oxorongá), que se tornou a nova Mãe de santo. Isso provocou sérias discussões entre os membros mais antigos do terreiro de Iyamasso, tendo como conseqüência a criação de dois novos terreiros originários do primeiro, Julia Maria da Conceição Nazaré, cujo orixá era Dada Baayami Ajakú, fundou o terreiro chamado Iyá Omi Asè Iyamassé, no alto do Gantois, Eugenia Ana dos Santos, aninha Obabii, cujo orixá era Xangô , auxiliada por Joaquim Vieira da Silva, Obasanya, um africano vindo do Recife e saudado essa Oburô, no padê ao qual foi feita a alusão, fundaram outro terreiro saído do Ilê Iyamasso e chamado Centro Cruz Santa do Axé do Opô Afonjá, que foi instalado em 1910 em São Gonçalodo retiro, depois de o Axé ter funcionado provisoriamente num lugar chamado camarão do rio vermelho.
Sob o impulso dessa grande Mãe de santo, o novo terreiro rapidamente se igualou aos outros e talvez tenha sido mesmo ultrapassado em reputações aos outros candomblés keto. Maria da Purificação Lopes, a tia Badá Olufandei, sucedeu em 1938 a aninha e deixou em 1941 o engargo do terreiro a Maria Bibiana do Espírito Santo, Mãe senhora Oxun Miuá, filha espiritual de aninha Obabii.
Pelo jogo complicado de filiações, “senhora” era bisneta de Obatossi por laços de sangue e neta pelos laços espirituais da iniciação, em outros termos Iyamasso Akalá (ou Oká) foi a geração anterior, ao mesmo tempo bisavó e trisavó de “senhora”, mas as coisas tornariam-se mais complicadas ainda quando “senhora” recebeu em 1952 o titulo honorífico de Iyamasso pelo Aláàfin Òyó da Nigéria, através de uma carta. Senhora, abolindo o tempo passado graças a essa distinção, tornou-se espiritualmente a fundadora dessa família de terreiros de candomblé na nação keto, na Bahia, todos os originários da barroquinha. Confirmou tão elevada posição, em 1962, quando foi presidi seguida de seus ogãs de santo do Ilê Iyamasso da Casa Branca do engenho velho, Maximiliana Maria da Conceição, tia Massi Oinfunké.
Essa dignidade recebida na áfrica por senhora, provocou, diga-se de passagem, comentários e rumores, os fuxicos que agitam e apaixonam as pessoas pertencentes a este mundo pequeno de tradições, onde as questões de etiqueta, de direito, fundamentadas sobre o valor dos nascimentos espirituais, de primaz graduação nas formas elaboradas de saudação, de prosternações, de ajoelhamentos são observados, discutidas e criticadas apaixonadamente; neste mundo onde beijar a mão, as curvaturas, as inclinações de cabeça, as mãos ligeiramente balançadas com gestos abençoadores representam um papel tão minucioso e docilmente praticado como na corte do rei Sol. Os terreiros de candomblé são os últimos lugares onde as regras de bom-tom ainda reinam.
Após o desaparecimento da saudosa Mãe senhora em 1967, duas novas mães de santo lhes sucederam a frente do Opô Afonjá: Maria Estela de Azevedo Santos, Odékayodé, retomando a tradição de Iyamasso e de Obatossi, realizando uma viagem as fontes, na Nigéria e no ex-Daomé.
Outros terreiros foram criados, originários do Opô Afonjá, formando uma terceira, ou mesmo uma quarta geração dessa família de candomblés que nasceram na barroquinha: citemos o Axé Opô Aganjú, de Balbino Daniel de Paula, Obaraim, que viajou para a África e participou das festas para Xangô, com perfeita naturalidade como se sua família não houvesse deixado aquele pais por varias gerações. Recebeu aí o novo nome africano, Gbobagunlá, o rei desse sob a terra. Indiquemos também o tereiro Ylé Orisanlá Funfun, instalado em Guarulhos, São Paulo pelos esforços de Iderico do Nascimento Coral, filho de santo de Mãe menininha do gantois; este pai de santo Fe, em companhia de um de seus filhos de santo, Tasso Gadzanis, de Ogum, varias periguinações pela África, onde recebeu de Olufon, rei de Ifon, o título invejável de Aworó Osalufón.
No estado do Rio de Janeiro instalaram-se numerosos candomblés originários dos terreiros de keto da Bahia, citemos entre os mais prestigiosos o Axé Opô Afonjá em coelho rocha, ligado auele mesmo nome estabelecido na Bahia pela celebre Aninha, em Miguel Couto, o terreiro de Nossa senhora das candeias, fundado por Nitinha de Oxun, filha de santo de tia Massi, o da Casa Branca; também em Miguel Couto o Abacá de Oxossi, fundado por Nilson hora caribe, Ode Ataio.
Tudo isso mostra a vitalidade e crescimento  e a multiplicação dos terreiros originários da barroquinha.
Ao lado do nagô-keto há na Bahia os da nação Ijexá, o mais digno dentre eles é o de Eduardo Ijexá.
Apesar da influencia nagô estar entre a maioria dos iniciados nesses cultos e há referencias também da influencia bantu entre os nagôs, isso se dá por conta da misturas de escravos vindo a esta costa; a maioria dos cativos foram gêges e nagô (daomeanos e yorubas), os angolanos e cangoleses também adentraram em nosso país.

A palavra candomblé, que designa na Bahia as religiões africanas em geral, é de origem bantú, e provavelmente a influencia das religiões vindas da região da África situadas nas mediações do equador não se limitam apenas ao nome das cerimônias, mas tenham dado ao culto nagô e Gêge, de uma forma que os diferenciam das manifestações na África.

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