sábado, 30 de março de 2013

A tradição afro-brasileira



Assim como os iorubás (nagôs em nosso país) é certo que na África todas as nações que deram escravos ao Brasil professam, desde suas origens, e com ligeiras variações locais, a chamada religião tradicional negro-africana. essa religião se apóia numa força suprema, geradora de todas as coisas, mas abaixo dela existem e são cultuados forças da natureza e espíritos dos antepassados. Para essa religião o maior bem da existência é a força vital - axé. Chamamos de religião tradicional negro-africana o que se reflete em todo o modo de ser e agir do negro africano.
A religião tradicional africana, reposta nos terreiros, bem como no interior de uma sociedade como a brasileira, regida por uma moderna ideologia ocidental, vai criar uma coexistência e interpretação multisseculares de duas ordens culturais - a branca e a negra. Assim a cultura negra vem funcionando como uma fonte permanente de resistência a dispositivos de dominação e como mantenedora do equilíbrio efetivo do elemento da cultura negra no Brasil.
É importante ressaltar que não se tratou de uma cultura negra fundadora de um campo de resistência  Para o Brasil vieram dispositivos culturais de diversas etnias dos escravos arrancados da Africa entre os seculos XVI e XIX; tais culturas já conheciam as mudanças na própria Africa em função de reorganizações territoriais e das transformações civilizatórias - a substituição de antigos reinos por uma estrutura de natureza estatal. No Brasil, as mudanças são mais radicais, já que os proprietários de negros escravos evitavam reunir grande numero de pessoas de uma mesma etnia, estimulando as rivalidades étnicas e desfavorecendo a constituição familiar.
Os folguedos, as danças, os batuques eram primitivos por acentuarem as diferenças entre diversas nações e por servirem como válvula de escape. Entretanto, os negros reviviam clandestinamente os ritos, cultuavam os deuses e retomavam a linha do relacionamento comunitário exatamente durante as danças e folguedos, criando uma cultura negra brasileira.
No interior da formação social brasileira, o continuum africano, afirma Muniz Sodré em A verdade Seduzida, gerou uma descontinuidade cultural em face a ideologia do Ocidente, que manteve intactas formas essenciais de diferença simbólica, por exemplo: a iniciação, o culto aos mortos - orixás e ancestrais ilustres (egungun), como aqueles reelaborados ou amalgamados em território brasileiro.
A expansão dos cultos ditos "afro-brasileiros" em todo território nacional, se deve a prática e persistência de formas essenciais em pólos de irradiação, que são as comunidades-terreiros (egbé). É isto que faz com que um santo da Igreja Católica - como São Jorge, possa ser cultuado num centro de Umbanda, como Ogum (orixá nagô). Assim, o conteúdo é católico, ocidental, religioso, mas a forma litúrgica é negra, africana, mítica.

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