terça-feira, 29 de janeiro de 2013

Os Oráculos Yorubá



                                                                                  Meu Mérìndìlogúm

Todos conhecem o oráculo yorubá. Mas, poucos sabem como funciona. Atualmente é utilizado os búzios como instrumento para a comunicação com os deuses yorubá. O jogo de búzios  chamado de Mérìndìlogúm - que significa o numeral 16, é o mais comum dentre alguns oráculos yorubá.
É interessante ressaltar que cada tribo africana tinha sua própria forma de entrar em contato com as divindades para obter suas respostas. Ao contrário do que muitos pensam, o jogo de búzios é uma forma mais contemporânea de oráculo.


                                                                      ( schecebora golungensis - fruto seco, usado no  Òpèlè )


                                                                                     schecebora golungensis - fruto

 O mais antigo entre eles é o Òpèlè, elaborado com metades de uma fruta (semelhante a uma pera,  chamada schecebora golungensis, presas por uma fileira de correntes que, através de um só lançamento, se determina o Odú.

Há também o Íkim, sementes do dendezeiro; que, seguem o mesmo mecanismo dos búzios  Mas este deve estar acompanhado de um pó - produzido por cupins na arvore de baobá, onde são riscados em um tabuleiro os odus lançados. Neste caso são usados 21 íkins; mas, só se lançam 16.

                                                         
                                                                                     ( Ikin - fruto do dendezeiro)

O Mérìndìlogúm é o que temos de mais popular hoje, no qual se utiliza os búzios  Comumente se utiliza 16 búzios  mas algumas "nações" usam 21, sendo que 5 deles ficam guardados no Ageré Ifá (recipiente onde se guarda o oráculo).

Bem, como é feita a leitura? 

O povo yorubá sempre prestaram homenagem especial aos ancestrais; e assim como eles tinham seus ancestrais, os deuses também o tinham, e são denominados de Odú. Odú é um termo na língua yorubá para determinar estados de "tempo" - horas, meses, anos, Eras... Este mesmo termo é utilizado para designar os Grandes Senhores da Criação - os 16 caminhos por onde Odudua percorreu até criar a Terra e seus filhos, os "destinos". São os "Gênios da Criação"; Eu costumo compará-los aos Titãs dos gregos; os Gigantes dos nórdicos; aos Totens dos aborígenes - todos os mais "antigos" que deram origem aos deuses e semi-deuses. Cada um destes caminhos levam a mais 16 atalhos, que são chamados de Odu kékèrè ou Òmò Odu - Odus menores. São esses Odus menores que determinam as origens do orixá, o que popularmente conhecemos como "qualidades de orixá". Para cada Odú existe um Itán (conto/lenda) e nestes versos estão contidas as histórias que sinalizam a situação do consulente.

Assim sendo, temos um total de 256 versos ou situações. Por isso se torna uma leitura delicada e que deve ser bem observada. Para se ter uma leitura adequada é importante conhecer esses itans.

Quem são esses Odu's?

É bom esclarecer que, originalmente, os Odus se manifestavam através do Òpèlè Ifá, aquele instrumento com as frutas secas; no entanto posteriormente, com o desuso deste mecanismo e a popularização do Mérìndìlogúm, foi necessário fazer algumas adaptações para que se pudesse entender a manifestação dos Odu no oráculo. Mas, por que houve a necessidade de "adaptação" haja vista já existir os Odu? Muitos itans se perderam durante o tempo, e com a união de diversas tribos e culturas no decorrer da escravidão  foram juntando as peças e reuniram os itans através do Mérìndìlogúm - jogo de búzios.

A seguir vou citar estes Gênios da Criação em seu posicionamento original, através do Òpèlè Ifá:

1- Èjí Ogbè
2- Òyèkú Méjì
3- Ìwòrí Méjì
4- Òdí Méjì
5- Ìròsùn Méjì
6- Òwónrín Méjì
7- Òbàrà Méjì
8- Òkànràn Méjì
9- Ògúndá Méjì
10-Òsá Méjì
11-Ìká Méjì
12-Òtúrúpòn Méjì
13-Òtúrá Méjì
14-Ìretè Méjì
15-Òsé Méjì
16-Òfun Méjì

O que quer dizer esse "Méjì"? méjì é um termo na língua yorubá que determina "divisão", "polaridade", "bem e mal", "masculino e feminino". Assim, podemos dizer que esses Odu contém em sua essência as duas polaridades em equilíbrio, não cabendo ao sacerdote atribuir o positivo e negativo deles, esse só pode ser determinado pelos odu kèkèrè.


Agora, vamos ver como ficou o posicionamento deles no Mérìndìlogúm : (ao lado colocarei sua referência ao Òpèlè)

1- Òkànràn (8)
2- ÈjÌ Òkò (12) 
3- Étà Ògúndá (9)
4- Ìròsùn (5)
5- Òsé (15)
6- Òbàrà (7)
7- Òdí (4)
8- Éjì Onílè (1)
9- Òsá (10)
10-Òfún (16)
11-Òwónrín (6)
12-Èjìlá Sebora (3)
13-Éjì Ológbon (2)
14-Ìka (11)
15-Ògbegúndá (14)
16-Àlàáfía (13)


Lembrando que, mesmo havendo uma "referência" entre eles, são sistemas totalmente diferentes de manipulação e leitura. A contagem dos Odus se dá através da leitura de quantidades de búzios,  Ikin ou schecebora que caiam abertos ao final do lançamento. É relevante citar que o búzio aberto para os Odu é aquela fenda aberta pela própria natureza e não aberta pelo homem. Quando se considera a parte aberta pelo homem como a "boca" é um outro tipo de leitura, no qual não envolve a consulta aos Odu's, e sim aos orixás. Isso se deu porque, quando o homem precisou se comunicar diretamente com os orixás, Elegbará (Exú orixá), solicitou que o homem "abrisse" o outro lado para falar com eles. Então, quando queremos "conversar" com o orixá, consideramos o lado "aberto", aquele no qual impomos a força para "abrir a boca de Exú". Quanto aos Odu's, a própria natureza se encarregou de abrir.

Hoje em dia é comum ver várias pessoas que se propõe a leitura do oráculo yorubá; Isso seria correto? No meu ponto de vista, desde que haja conhecimento necessário para a interpretação dos itans, assim como a preparação do oráculo - que exige uma ritualística  não vejo problema. Entretanto,  o mais aconselhável é que a pessoa tenha uma preparação também na liturgia yorubá, o que se dá no processo de iniciação a religião.

Nos próximos post falarei individualmente e sobre cada Odu e seus respectivos kèkèrè - odu menores, nos aspectos do Òpèlè e do Mérìndìlogúm.


Luqiam, 29-01-2013

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