quarta-feira, 16 de janeiro de 2013

A Religião Yorubá

Antes de expor minhas colocações, vejam o que diz a Wikipedia sobre o tema: http://pt.wikipedia.org/wiki/Religi%C3%A3o_yoruba

É comum, quando se trata de religiosidade afro-brasileira, as pessoas me perguntar: Você é de nação?
E respondo: Sim. 
Mas, o que quer dizer isso?

Com a globalização e miscigenação da religiosidade africana, nos deparamos com diversos sincretismos e associações. O que é muito natural. Entretanto, é importante salientar que o culto nativo africano original segue hierarquia sacerdotal e ritual, e muitas vezes são tida como "tradições orais", onde os mais velhos transmitem o conhecimento aos mais novos, geralmente dentro da própria comunidade, sem a necessidade da escrita. Mas, vamos lembrar que isso nunca foi um mecanismo de defesa - segredo, e sim, simplesmente porque desconheciam a escrita, ou não a usavam dentro da religiosidade.

Com o advento da escravidão e perseguição religiosa, a cultura africana necessitou de certa forma se "esconder" para sobreviver, e isso levou ao passo da sincretização - uma forma disfarçada de cultuar seus deuses; consequentemente o próximo passo seria adaptar os ritos e os tornar menos primitivo. Hoje, os deuses africanos são cultuados com mais liberdade - ainda havendo preconceito e ignorância.

A Umbanda, criada por Zélio Fernandino de Moraes, foi fundamental na transição de aceitação desses deuses, apesar do sincretismo ser a base fundamental para a religiosidade na Umbanda. Aproveitando o parágrafo, quero deixar claro que, conheço a cultura yorubá, mas em Umbanda sou leigo (heheheh).

O culto tradicional, ou pelo menos, o que chega mais perto de sua realidade ficou por conta do que chamamos hoje de "nações", mais conhecidas como Ketu, Jêje, Nagô, Angola, fon e muitas outras. A mais popular, e isso se dá por conta do movimento de liberdade religiosa na Bahia, ficou por conta do Ketu; que em sua realidade nada mais é do que uma mistura de diversas tribos, criando assim sua metodologia/tradição própria e difundida atualmente. Por isso é comum vermos em templos de ketu o culto a "entidades" que não fazem parte da religião yorubá - como: pombogiras, caboclos, pretos velhos, ciganos etc.

Entenda-se que, com advento da popularização, muita coisa se perdeu ao longo dos tempos, o que não desmerece o respeito e aplicação da religiosidade, tampouco sua fé. Apesar de se tratar de culto nativo africano e muitas vezes primitivo, não coloca a religião yorubá em um patamar melhor ou pior de que qualquer outra religião; estamos falando de religiosidade muito mais telúrica do que cósmica, e isso talvez pese em seus ritos. Mas, mesmo sendo em sua maioria telúrica, a religião dos orixás também está voltada aos céus (orùm), o que explanarei em outro tópico - Orixás e astronomia.

Dos ritos.

Como dito antes, cada tribo/nação tinha seu próprio rito, e isso é o que torna fascinante a religião yorubá e o estudo dos deuses africanos. Diferente do que temos hoje em dia na Africa - quando cultuados, os orixás eram "padroeiros/padroeiras" de cada tribo, e isso fazia com que todos os membros daquela comunidade fossem devotos (filhos) daquela divindade.

Os ritos por serem mais telúricos exigiam a manipulação de elementos da terra, como ervas, barro, minérios, animais, assim como a alquimia entre os elementos primordiais (Terra-Água-Fogo-Ar), rezas, cantos e danças. Uma religiosidade simples, bela e voltada a celebração e sobrevivência  Festejavam a colheita, a sexualidade, a vida e a morte. Os deuses "conviviam" entre seus filhos, fundamentados em códigos de ética social e religiosa, tudo de forma muito natural - SEM OBRIGAÇÃO!


Das indumentarias.

Sinto muito comentar sobre isso, pois ao meu ver, é neste aspecto visual que está a chave de muita discordância e fuga de sua originalidade, e também, o instrumento de ostentação, glamour e egocentrismo que impera na religião hoje em dia.

Primeiro vamos fazer uma viajem de volta a época da escravidão, e não precisa ser nenhum Expert em história para observar e entender como nossos ancestrais africanos viviam, vestiam, comiam etc. É de extrema ignorância pensar que uma divindade, em uma tribo nativa africana, se paramentava como destaque de Escola de Samba! Só aqui mesmo...



Vamos colocar os neurônios para funcionar! Por se tratar de uma religiosidade e divindades de natureza telúrica, sua representações - indumentárias, estão diretamente e estritamente ligadas à Terra. Assim sendo, seus instrumentos físicos - ferramentas e armas; e espirituais - danças e movimentos, deveriam estar associada a este aspecto. Madeira, ervas, palha, minério, máscaras, sementes, couro, algodão cru... quando não, nus!

Mas, aí vem a questão : Quando os orixás começaram a ser representados com vestimentas contemporâneas  como saias rodadas, espartilhos, calças, chapéus etc...?

Critico SIM a ostentação e exageros de brilho e enfeites nas divindades yorubá! Mas... devo concordar que tudo isso se iniciou por uma necessidade de adaptação e sobrevivência. E voltamos no tempo a época da escravidão  pois como dito anteriormente, tudo começou aqui, na colonização. Os nossos ancestrais não podiam representar seus deuses em sua originalidade, haja vista muita vezes de forma exótica; e isso, com toda certeza chamaria a atenção de seus colonizadores - católicos europeus. Por outro lado, precisavam praticar sua religiosidade; e uma forma simples e fácil seria representá-los (vesti-los) de forma majestosa e significantemente à vista do povo europeu (seus colonizadores). E assim, mais uma revolução na forma original dos deuses yorubá surge. Uma mistura de vestimentas europeias e africanas surgia, uma nova "moda" no circuito "Yorubá Fashion Age". Saias rodadas e armadas + Alakàs; Ojás + Calças; Laçarotes + bantès.... Até aí, tudo bem! Mas, o exagero de hoje me deixa enojado, foje completamente do propósito original, e os deuses belos e humildes em sua simplicidade, dão lugar a energias ostentadoras e egocêntricas.

Deixo claro que essa é uma leitura minha, e não generalizo. Conheci e conheço templos que não se comportam dessa forma. Mas, infelizmente são a minoria remanescente de uma verdadeira essência humilde e belíssima, chamada Orì Ásè (orixá). Entretanto, na sua maioria, o lema é : Quem brilha mais, é mais louvado.

Infelizmente, muitos não percebem a realidade envolta no culto aos deuses yorubá; o conceito de prosperidade e beleza nosso não é o mesmo desse povo; e isso, muitas vezes levam os praticantes a usarem de argumentos toscos como: "Orixá é riqueza"; "Orixá é beleza"; "Orixá é brilho"... e são estes mesmos argumentos que levam uma multidão de "desesperados" a buscarem a religião yorubá como uma tábua de salvação para suas frustrações amorosas, financeiras, profissionais, sociais e familiares. Que pena! O que, fatalmente não acontece - a salvação; e automaticamente a religiosidade é difamada e criticada. Vamos ACORDAR!

Quem precisa de brilho, saúde, dinheiro, glamour... somos nós e não os deuses! Mas então, o que dizer do ouro, prata, bronze e tantos minérios preciosos citados nos itàns (contos) yorubá; ou das grandes civilizações religiosas que se cobriam de ouro e pedras preciosas?

Vamos colocar novamente a cabecinha para funcionar: os valores atribuídos a estas peças preciosas, nas civilizações antigas/primitivas, não eram valores materiais/comerciais, e sim valores minerais/alquímicos.

Este foi um breve comentário sobre minha visão dentro da religiosidade yorubá, nos próximos post estarei falando sobre: ritos, divindades e ancestralidade.

Espero que tenham gostado, e reflitam sobre.

(Texto de Luqiam Osahar - 16-01-2013)








Nenhum comentário:

Postar um comentário