segunda-feira, 21 de janeiro de 2013

A Imolação

POLÊMICO! Mas, vale a pena refletir.



O sacrifício de animais ainda é um tema bem discutido no meio dos simpatizantes e alguns praticantes da Religião Yorubá. 

Queiro deixar claro aqui, que este post é uma reflexão pessoal sobre o assunto e diga-se, embasada na História, e não nos mitos e práticas atuais.

Primeiro, antes de assustar meus leitores, sou contra essa excesso de imolação nos ritos atuais; E digo excesso porque a própria cultura religiosa yorubá "pede" este tipo de rito - mas, não do jeito praticado hoje.

Vamos voltar um pouco no tempo - lá na Africa; Um país pobre, exótico, e de sociedades nativas primitivas. Isso nos leva a pelo menos um breve entendimento de como eles viam suas necessidades espirituais. Vamos também recordar, que este tipo de prática não se deu só lá; Existiam tribos Celtas, Vikings , sul americanas e australianas que se utilizavam também desses tipos de anátemas.

Bem, para o povo yorubá, a vida e a morte caminhavam juntos, e se sustentavam do mesmo "combustível" - o sangue, chamados por eles de ejè. Os ritos de iniciações principalmente dependiam deste artifício - a imolação. Mas isso por uma simples responsabilidade espiritual denominada - pacto! Para que percebam a diferença da antiguidade para a atualidade, vou comentar como se dava esse processo.

Uma criança, ao estar esperando seu nascimento, estava dedicada ao orixá de sua região. Os pais, ao saberem que assim que nascera a criança deveria ser dedicada a divindade - num conceito de proteção, começavam a se preparar para este rito - de iniciação. Era escolhido o melhor animal de seu rebanho, de preferência aquele animal no qual a divindade preferia. Este animal era cuidado como membro da família, se alimentando do melhor e muitas vezes dormindo ao lado da mulher grávida; Estavam preparando o "melhor" deles para o deus. Ao nascer da criança, ela era preparada para uma série de ritos que se iniciava com banhos de ervas, e barro, pinturas e rezas, até o momento da iniciação. Durante esse período o leite materno era dividido entre o animal e o bebê, o que os tornariam ligados pela fonte geradora da vida - a mãe ( o Sagrado Feminino). No dia da iniciação era preparado um grande banquete para todos os membros sacerdotais e sociais da comunidade. A imolação se dava de maneira rápida, indolor- pois para isso usavam misturas de ervas alucinógenas introduzidas no animal; sendo o sangue lançado na terra para a Grande Mãe ( Odudua) e a carne preparada e servida no banquete para alimentar os participantes. 
É simples entender, pela significação e importância do sangue, como fonte da vida, um simbolismo de que uma deidade estava "nascendo" para aquela criança. O mais curioso, e que não se aplica hoje em dia, é que este tipo de rito só se dava no momento da iniciação, o pacto estava feito - para o resto da vida! Não havia mais a necessidade de sacrifícios futuros. Ofertava-se o sangue do animal, preparado como um "deles" em troca do da criança.

Outro fato curioso e pouco conhecido é o que torna esse rito mais fantástico! Este tipo de procedimento não se dava em todas as tribos. Na religião yorubá nos temos três tipos de sangue e imolações utilizadas : 1- para o nascimento, 2- para o desenvolvimento-crescimento, 3- para a morte - viagem de volta ao Orùm (céu).

Ejé àwó pùpá - sangue vermelho (dos animais, usados nos ritos de iniciação)
Ejé àwó funfun - sangue branco ( das ervas, seiva, usados durante a vida, para alimentar os orixás)
Ejé àwó dúdú - sangue negro ( betumes e minérios em decomposição, usados em ritos de passagem morte)

Observem a NÃO necessidade destes povos em sacrifícios constantes! O que, infelizmente vemos muito hoje de forma absurda e descriminada, talvez como uma forma de chamar a tenção com ritos bizarros e patéticos.

Sei que muitos praticantes vão discordar de minhas colocações; mas, basta um pouquinho de conhecimento histórico para perceber o simbolismo sutil destes ritos.

Ah Luqiam, - "nossos ancestrais escravos sacrificavam muitos animais e até hoje as casas mais antigas o fazem, é uma tradição, e deve ser mantida!" DISCORDO! E vamos novamente viajar no tempo. Por que nossos ancestrais escravos faziam estes frequentes sacrifícios, e que se mantiveram até hoje? Nada tinha a ver com sua religiosidade, mas, simplesmente com a FOME! Um povo escravo, sem comida, e que a única forma de encher suas barriguinhas famintas e desnutridas, era nos momentos de suas celebrações religiosas, daí a quantidade de sacrifícios feitos - Para matar a fome! Basta conhecer um pouco da história para que isso fique claro. O único momento em que nossos ancestrais escravos vivenciavam uma mesa próspera, era quando seus Senhores permitiam suas celebrações - diga-se de passagem escondidas, com intuito de ganhos através da bruxaria dos negros; e para isso doavam vários animais para a imolação, pois era de conhecimento dos colonizadores este tipo de rito yorubá.

Virou moda... e F...! Todos se apoiavam nos Orixás como desculpa para toda hora sacrificar um animal e deixar suas dispensas cheias.

Hoje em dia, pior ainda, isso não cabe mais. A maioria dos praticantes de religião yorubá ganham rios de dinheiro, podendo bancar um bom buffet para suas festas; mas mesmo assim continuam praticando esse excesso de sacrifícios. Suas geladeiras e freezers ficam cheios, chegando até a estragar a carne como já presenciei!

Portanto, sou sim a favor do rito de imolação, desde que seja feito dentro de sua originalidade. Mas, comungar com esse absurdo atual de lavagem de sangue nos templos, de animais não preparados para o determinado fim, e muitas vezes sendo imolados com obés (faca) cega, gerando sofrimento indescritível aos nosso irmãos - CONTRA, CONTRA E CONTRA! 

Sem falar nas aves apodrecendo nas encruzilhadas da vida, como se fosse tudo tão natural... quanta ignorância, ou sei lá... esperteza.

Outro detalhe que vale a pena comentar : A imolação só era praticada para as divindades - precisavam de ejé para renascer no Ayé (terra) e servir de guias protetores de seus dedicados. NUNCA para os Odús, o que infelizmente vemos hoje, como uma das maiores garfias dentro da religião - sacrifícios para os Odús.

Luqiam- 21-01-2013



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