sábado, 15 de janeiro de 2011

A Função da Ansiedade - Nossa Capacidade de Previsão

Nas classes “mais elevadas” de animais, particularmente a dos mamíferos, circunstâncias ameaçadoras provocam um tipo de dor que chamamos de ansiedade. A ansiedade é um tipo especifico de reação dolorosa que serve para fazer com que esses animais de classe mais alta evitem circunstâncias que possam oferecer perigo.
O estomago, como órgão responsável pela digestão dos alimentos, tem receptores de dor que reagem a quantidade de nutrição que recebe. E , analogamente, o cérebro, onde todas as informações ficam armazenadas, reage a quantidade das informações que recebe. Por exemplo, um filhote de coelho aproxima o focinho do fogo pela primeira vez. A temperatura muito alta estimula os receptores de calor espalhados por sua pele. O estimulo negativo – doloroso – excita os reflexos motores e faz o coelho afastar-se do fogo. Após escapar dessa situação com apenas uma queimadura superficial, ele codificará a experiência dolorosa na forma de uma lembrança. De agora em diante, sempre que ele perceber a presença do fogo, a lembrança dessa experiência o alertará para não se aproximar. Não precisará mais passar pela dor de ser queimado, porque sua memória servirá como pára-choque contra o que emitir calor excessivo.
Embora a capacidade de armazenar e usar lembranças faça com que o coelho evite o fogo, não significa que a lembrança de ser queimado seja completamente isenta de dor. A fim de lembra-lo da possível ameaça que o fogo e o calor excessivo representa, a lembrança provocará nele o tipo de desconforto que chamamos de ansiedade. Dessa maneira a ansiedade lhe causará certo grau de desconforto, apesar de servir para protege-lo de sofrer dano físico real. O fato de que lembranças possam causar desconforto psicológico – ansiedade – demonstra que elas guardam tanto informações emocionais, quanto as puramente factuais. Na verdade, a memória emocional tem sido atribuída a amídala do cérebro que, quando danificada, pode causar a perda da capacidade do individuo de recuperar lembranças que contem conteúdo emocional.
Com essa avançada capacidade de armazenar lembranças emocionais, juntamente com a de experimentar a ansiedade, um organismo não tem mais de suportar dano físico real antes de enfrentar experiências potencialmente perigosas. A ansiedade, assim, age como um dispositivo de alarme que mantém um organismo sempre alerta contra ameaças antes que elas se concretizem.
Vejamos um exemplo extremo de como a ansiedade é útil. Imagine que o coelho entra em uma caverna e vê-se frente a frente com um feroz leão. O perigo da situação faz com que o coelho experimente os mais dolorosos sintomas de ansiedade, todos com a finalidade de impeli-lo a escapar da ameaça. Alguns desses sintomas são: taquicardia, tensão muscular, hiperventilação, tremor e transpiração, todos alertando o coelho a fugir da fonte de seu desconforto – no caso o leão – o mais rapidamente possível. Assim, embora o leão ainda não tenha posto a pata sobre ele, o coelho já experimenta a dor da ansiedade.
Num caso como esse, em que o animai depara com uma ameaça mortal, os sintomas da ansiedade podem ser extremamente dolorosos. A ansiedade, dessa forma, serve como uma adaptação vantajosa porque incentiva um animal a reagir de perigos com mais rapidez e eficiência. Se o coelho escapar das garras do leão, codificará essa experiência geradora de ansiedade na forma de lembrança. Agora, na próxima vez em que ele sair de sua toca, a lembrança da ansiedade que experimentou em seu anterior encontro com o leão o impedirá de chegar perto de cavernas, ou até mesmo de outro leão. Graças a essa função da ansiedade, nosso coelho não precisará ser atacado varias vezes por um leão para saber que deve evita-lo. Por esta razão, a ansiedade representa uma necessidade biológica.
Como o cérebro humano é maior e mais complexo do que os dos animais de todas as outras espécies, nossa capacidade cognitiva é muito mais sofisticada. Em primeiro lugar, nosso cérebro tem espaço para armazenagem muito maior, de modo que podemos reter muito mais lembranças. Em segundo lugar, nossa espécie possui grande capacidade de compreender um possível futuro. O resultado dos efeitos combinados dessas nossas capacidades é que somos motivados e buscar alimento e abrigo, não apenas para o presente, mas também para o futuro, porque sabemos, por exemplo, que a fome causa dor, e porque podemos fazer previsões. Diferentemente de muitos ancestrais evolucionários, que dependem dos estímulos imediatos da fome para serem motivados a procurar nutrição. Os seres humanos são compelidos a certificar-se de que há alimento disponível muito antes de precisarem dele. Essa capacidade de previsão nos dá o beneficio adicional de ter mais tempo para suprir nossas necessidades vitais básicas. Pelo fato de um organismo mais simples precisar de estimulo imediato da fome para ser motivado a procurar o necessário suprimento de alimento, pode receber o aviso de que deve procura-lo com apenas alguns dias de antecedência, antes de morrer de fome. No caso dos seres humanos, entretanto, como resultado de nossa avançada capacidade de previsão, somos compelidos a procurar comida muito tempo antes de sentirmos fome.
Embora essa capacidade trabalhe a nosso favor, vem acompanhada de uma desvantagem. Devido a nossa incrível capacidade de previsão, em vez de apenas sentirmos ansiosos a respeito das ameaças do presente, nós, humanos, experimentamos ansiedade por todas as possíveis ameaças que põem nosso futuro em perigo. Assim, não apenas sentimos ansiedade sobre conseguir a próxima refeição, como também refeições do sai seguinte. E não é apenas com alimento que nos preocupamos, mas com tudo aquilo de que precisamos para nos manter no futuro. Por esta razão, embora nossa capacidade de previsão represente uma vantagem, gera também uma tremenda carga de ansiedade.
De muitas maneiras, a função da ansiedade representa nossa principal defesa na luta incessante pela sobrevivência. É ela que nos mantém alertas e vigilantes, sempre em guarda contra as ameaças de fome, desidratação, calor, frio excessivo, pessoas estranhas, doenças, animais predadores, plantas venenosas, objetos afiados, incêndios, enchentes, secas, furacões, escuridão etc., todas as coisas contra as quais temos habilidades única de nos precavermos muito tempo antes de elas representarem uma ameaça real. É essa função da ansiedade que nos motivou a manufaturar o fogo e a luz elétrica, a desenvolver todos os tipos de tecnologias médicas, a construir represas e fortificações estruturais, a construir silos para armazenagem de alimentos, a inventar meios de refrigeração. Por causa de nossa elevada capacidade de previsão, combinada com a ansiedade gerada pelo medo de possíveis ameaças, nós nos preocupamos obsessivamente com o futuro. É necessário que seja assim, porque, no instante em que nos tornarmos negligentes e baixarmos a guarda, ficamos vulneráveis em um mundo de perigos e predadores em potencial. Em suma, quanto menos ansiosos somos, mais vulneráveis nos tornamos e, portanto, corremos mais perigos.
Enquanto outros animais tem garras e dentes afiados com os quais se protegem, nós seres humanos, temos a capacidade de previsão. Com essa capacidade, estamos muito mais bem equipados para nos fortalecermos contra ameaças do que qualquer outra criatura. Todavia, esse tipo de inteligência avançada tem um preço bastante alto.

Um comentário:

  1. Interessantíssimo! Total arcano XIII e A Lua! Muito bom, Robson!

    Abraços!

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