segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

RAPA NUI - Ilha de Pácoa [ Lição para a Humanidade ]



A aura de mistério que envolve os 171 km quadrados da ilha de Páscoa pode ser sentida de longe. A imagem dos moais – esculturas gigantescas representando seres sagrados – vem à cabeça com a força de um enorme ponto de interrogação. Mas as perguntas a respeito do pedaço de terra mais isolado do planeta não param de surgir conforme mergulhamos no seu universo sem igual. A pálida vegetação rasteira e a costa repleta de pedregulhos vulcânicos contrastam com o pouco verde visível, principalmente nos arredores de dois dos três vulcões inativos, onde a natureza ainda conseguiu se reciclar.
Algo de muito errado aconteceu ali. Isso é bem claro. A ilha de Páscoa foi cenário de uma experiência humana mal-sucedida. E o recado para o resto do planeta está lá para ser dado.
Em poucos mais de mil anos, uma civilização ocupou a ilha, viveu seu esplendor, criou um sistema de escrita, esgotou completamente os seus recursos naturais, mergulhou em tempos de escuridão causados pela fome quase absoluta e, por fim, sucumbiu ao contato com civilizações mais avançadas que a sua. Graças a estudos realizados ao longo dos séculos 19 e 20 por cientistas como pioneira inglesa Katherine Routledge e o norueguês Thor Heyerdahl, hoje é possível traçar uma história clara da Ilha de Páscoa e de seus habitantes originais.
Segundo os relatos passados de pai para filho, um rei e seu pequeno séqüito chegaram à ilha por volta do século 7. seu nome era Hotu Matu’a e suas origens, um mistério. A paisagem era deslumbrante: um paraíso tropical repleto de palmeiras, pássaros, cavernas vulcânicas onde os novos habitantes logo se instalaram. A ilha ganhou nome: Rapa Nui.
Os herdeiros do primeiro rei dividiram-se em tribos e desenvolveram sua região perpetuando a história de seus antepassados com rituais sofisticados. Cerca de trezentos anos depois da chegada, os ilhéus passaram a honrar sua memória de maneira grandiosa. Aos pés do vulcão Rano Raraku, as tribos passaram a esculpir gigantes de rocha vulcânica. Hoje sabe-se que os moais representavam ancestrais e cada plataforma (os ahu) pertencia a uma linhagem diferente.
Graças a riqueza de recursos naturais e a vida sem muito esforço, os nativos puderam se dedicar a produção desenfreada das estátuas. Estudos e simulações mostraram que um grupo de 20 homens poderia esculpir um moai de seis metros e 7ª toneladas e transporta-lo ao seu ahu no período de um ano.


O frenesi místico e artístico que transformou a ilha de Páscoa no talvez maior museu a céu aberto do planeta cobrou um preço muito alto. Para transportar as centenas de estátuas, os nativos tiveram de usar troncos como eixos móveis. O desmatamento indiscriminado literalmente acabou com todas as arvores do lugar. Sem a reciclagem do ecossistema, os pássaros deixaram de migrar para a ilha. O solo empobreceu. E até mesmo a pesca tornou-se instável: sem troncos, não havia mais canoas grandes o suficiente para pesca em alto mar, limitando-se ao litoral repleto de armadilhas criadas pelas pedras vulcânicas. Os ilhéus estavam condenados a ficar na devastada Rapa Nui – nem fuga para outras ilhas, uma manobra comum aos polinésios, era possível sem suas canoas.
O período de trevas logo começou. As tribos passaram a se enfrentar. Os moais eram derrubados para humilhar adversários vencidos. A comida desapareceria. Historias de canibalismo começaram a surgir, principalmente na soturna Ana Kai Tangata, ou algo como “caverna onde homens são comidos.”
Os povos sobreviventes passaram por transformação espiritual. Do culto aos moais, elas passaram a viver  a Era do Homem-Pássaro. Em cerimônias na aldeia de Orongo, um conjunto de casas de pedra no ponto mais alto do vulcão Rano Katu, os nativos competiam uma vez por ano para escolher um eleito.


Para transformar-se em Homem-Pássaro e ser o representante do deus Makemake na terra, o candidato tinha que saltar do penhasco formado pela cratera do vulcão, nadar por águas infestadas de tubarões até as ilhotas Moto Nui e Motu Iti e trazer de volta um ovo de um pássaro migratório, a Fragata. O culto presseguiu até pouco antes da chegada dos europeus. Suas marcas são vistas nos 1.274 petróglifos espalhados pelas rochas do sitio arqueológico de Orongo.
Em 1722, o holandês Jacob Roggeveen descobriu a ilha. Ele a colocou na rota internacional e abriu o caminho para as doenças que minaram a saúde dos sobreviventes. Pior: mostrou o rumo para traficantes de escravos peruanos responsáveis pela quase extinção dos nativos. Um final trágico para uma história sem igual – pelo menos, por enquanto... (rsrsrsr) Porque se as coisas atualmente no nosso planeta continuarem assim, nós destruindo todos os nossos recursos, provavelmente teremos o mesmo final. 

Nenhum comentário:

Postar um comentário